La Cebolla

A Cebola, de Rafael Courtoisie, por Maykson de Sousa

A poesia é um objeto que não se pode tocar, um corpo invisível dentro de outro corpo invisível dentro de outro corpo invisível dentro de outro corpo invisível dentro de outro corpo invisível dentro de outro corpo invisível. E assim, sucessivamente, sem se deter.

Uma cebola. Que cresce.

Uma cebola com asas, sob a terra. Viva.

A poesia é uma cebola com asas.

Se arrancá-la ao sol e tentar descascá-la, se lhe tirar as finas asas invisíveis, concêntricas, comprova-se que cada camada oculta uma camada seguinte, que cada pétala translúcida cobre outra pétala interior, e assim para sempre: não se chega nunca ao centro da cebola, a cebola se desfaz no tempo, sem alcançar o seu núcleo, o núcleo do seu bulbo de asas, enterrado.

Quem tenta desnudá-la fica sem centro e sem nada, fica sem cebola.

E chora.

 

 

Tradução Maykson de Sousa

MAYKSON DE SOUSA (Divinópolis, Minas Gerais, 1988). Professor de literatura e língua espanhola, vive em Mato Grosso.
RAFAEL COURTOISIE (Montevideo, Uruguai,1958). Poeta, contista, romancista, ensaísta, professor de roteiro cinematográfico e literatura ibero-americana em Montevideo, onde vive.

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