Ardente

 

Eu sou ardente, não vou negar
Gosto de me secar ao sol
Aprecio qualquer paixão
Qualquer coisa como brincar
E o meu corpo é que nem farol
Indicando que pode entrar
Apontando uma direção
Pra quem quer se queimar
Procuro alguém tão singelo como eu
Que não se esconda das coisas naturais
Não tenha medo do fogo
Nem do vento que carrega
Pois, afinal, os elementos são todos iguais
Não é preciso fugir, você vai ver
A tempestade não vai lhe machucar
Se o coração é quem manda,
A natureza quer apenas lhe fazer aproveitar
E mostrando que eu sou ardente como você
Sou demente, mas quem não é?
Eu aprendo qualquer lição
Na versão que você quiser
Sonhador desses sonhos meus
Amoroso e fatal demais
Louco e solto, graças a Deus
Quero arder sempre mais

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Chapéu de palha 

DELTA DO PARNAÍBA - Câmera Holga K205 - Kodak Ultra 400 - Vencido - 36 Poses (Julho 2010)

Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.

Matilde Campilho

Sereia

Sereia
centauro
com sal

melhor é tua metade
animal

a parte humana sendo humana
sempre mente

só mesmo um peixe pode ser
contente

de nada te serviriam
joelhos ou pés

o que és é também
o que não és

nada
é o que fazes bem

metade do que sou
não sou também


Poesia de Ana Martins Marques